Os animês estão em baixa? Para a Netflix, sim. E o motivo vai além do boom coreano

Devilman crybaby – Releitura do clássico de Go Nagai e animê original da Netflix

Na última semana, uma entrevista bombástica do produtor de animação Atsushi Matsumoto (Ghost in the Shell, Dragon Ball Z, Utena) ao jornalista japonês Munechika Nishida, publicada no site Weekly ASCII, abordou um assunto polêmico, relacionado aos investimentos da Netflix. Após uma redução drástica de assinantes em 2021, a gigante do streaming reformulou seu planejamento, afetando diretamente os aportes em determinadas categorias, atingindo diretamente os animês. Na prática, as verbas para as produções japonesas diminuem – e quem ganha com isso, claro, são os dramas coreanos que conquistaram o coração de milhões de assinantes.

Mas será que os animês realmente não valem o investimento para a Netflix? Para isso, é necessário primeiro entender o contexto da entrevista, que faz uma análise no comportamento do povo japonês em relação ao restante do mundo, especialmente no consumo de conteúdos multimídia. Atsushi Matsumoto comenta peculiaridades que praticamente só existem no arquipélago, como a forte presença de locadoras de vídeo físicas, por exemplo. A forma, portanto, de ter contato com títulos é totalmente diferente: enquanto na Netflix o usuário paga uma assinatura e tem direito uma certa quantidade de títulos por aquele valor agregado, nas locadoras o consumidor paga para assistir uma determinada obra específica. Tal comportamento é tão enraizado que impede que o modelo de negócio da Netflix escale. Fora isso, os preços dos direitos das obras japonesas fogem dos padrões adotados em outras praças, o que dificulta ainda mais a estratégia de licenciamento para países fora do Japão. Em termos comparativos, na Coreia do Sul as negociações são menos complexas, garantindo maior variedade de produções com potencial para estourar mundialmente.

Mas o que fez as séries coreanas roubarem a atenção da Netflix?

Round 6 – Divulgação

A resposta é uma só… “Round 6”. O sucesso descomunal da produção sul coreana despertou a atenção da equipe da Netflix, que tem se esforçado em repetir o feito, lançando outras produções que tenham apelo similar do público.

Matsumoto explica: “Ao contrário das séries coreanas, o animê não está em uma posição em que possa obter visualizações por conta própria. Um exemplo especial é ‘Round 6’, que está no topo em diversos de países ao redor do mundo, mas os animês não estão tão longe”. E ele continua com: “Por exemplo, eles (animês) não entram no top 10 do ranking, mas estão no top 50.”

Na entrevista, o produtor deixa claro que a audiência dos animês não são ruins no streaming, porém, eles não conseguem as primeiras colocações. Como a Netflix trabalha com resultados, o desempenho dos animês está ligado ao custo de suas produções, o que torna desinteressante para plataforma continuar os investimentos, quando outros títulos dão maior audiência com um custo muito menor.

Na visão de Matsumoto, a Netflix irá manter de um a dois títulos famosos por temporada, porém a empresa americana irá diminuir o investimento, apenas assegurando lançamento exclusivo em sua plataforma. Mas não investindo tanto em produção como antes, o que outrora tornava a produção como “uma original Netflix”. Fica a dúvida se a produção japonesa realmente sairá do papel, agora que empresa americana não irá atuar mais como investidora, o que poderá inviabilizar a continuidade de determinada produção.

Netflix investe na Ásia com chegada de concorrentes

Knights of Sidonia – Um dos primeiros animês originais da Netflix – Divulgação

Outra pedra no sapato da Netflix foi a negativa da Disney e Warner, optando por não renovarem mais suas obras para a concorrência e mirando na criação de serviços próprios. Tal jogada incomodou a Netflix, que teve de acelerar a quantidade de projetos originais em seu catálogo.

No geral, porém, a empresa aumentou investimentos na América Latina, Europa e Ásia. Na Coreia do Sul, especificamente, o foco foram os K-dramas e filmes, enquanto no Japão foi animês, séries e filmes. Entre 2015 e 2020, o montante chegou a US$ 700 milhões em produções sul-coreanas. As séries faziam sucesso relativo, mas nada perto do que viria acontecer com Round 6 e isto fez a empresa rever o seu planejamento no mercado asiático.

Depois de Round 6, a Netflix investiu em 2021 o valor de US$ 500 milhões na Coreia do Sul. A quantia é quase metade de todo orçamento previsto da empresa para produções da Ásia, o que já desenha a mudança de investimentos da empresa dando prioridade total para as produções sul-coreanas.

Além disso, a empresa apostou suas fichas em remake coreano de “La Casa de Papel”, unindo os dois países que tem se destacado dentro da plataforma em obras de idioma não-inglês.

Estúdios da YCDSMC – Studio 139 alugados para a Netflix – Divulgação

A mudança na estratégia de investimentos na Coreia do Sul incluiu também a parte de produção. A Netflix alugou seis estúdios da YCDSMC – Studio 139, e mais três estúdios da Samsung Studio para garantir suas produções. Tais escolhas sinalizam preferência da Coreia do Sul em detrimento de outros países da Ásia, o que confirma em partes que o Japão perdeu preferência nos investimentos da companhia americana.

Os resultados das mudanças de plano poderão ser vistos neste ano. Serão 34 produções sul-coreanas programadas para os próximos meses, com filmes e séries. A busca desenfreada pelo sucesso de Round 6, portanto, continua. Para conseguir isso, ela continuará produzindo e medindo seus desempenhos, garantindo novos sucessos do público.

Netflix anuncia 34 produções originais coreanas para 2023

Queda de assinantes em 2022

Mas quem conhece a Netflix sabe que a empresa infelizmente tem uma série de cancelamentos, quando suas produções não alcançam o público que a empresa almeja encontrar.

Esses cancelamentos se acentuam ainda mais em momentos de crise da companhia, assim passado a pandemia, a empresa perdeu assinantes, o que acarretou ainda mais a escolha da empresa em continuar novas produções.

Só que esta não é a única escolha da empresa em reduzir seus custos. Criando uma assinatura com anúncios, desenvolvendo taxas para o fim de compartilhamento de senhas, a Netflix espera recuperar estas perdas, o que afeta a imagem da empresa diante ao público.

E a concorrência se mexe… na Ásia

Bleach entra no catálogo do Star Plus / Disney Plus – Divulgação

Quando estreou na Ásia, a Disney Plus não agradou o público logo de cara. Focando em suas produções americanas, a empresa percebeu um fator que a Netflix conseguiu com investimentos locais que foi reter o público destes países.

Perdendo assinantes mês após mês na Ásia, a Disney Plus acelerou o passo e negociou com canais coreanos e canais japoneses, trazendo uma série de produções locais para o catálogo. Entre os animês, a Disney assegurou os direitos de Bleach e Tokyo Revengers internacionalmente, além de ajudar na produção de um filme baseado no último mangá do Osamu Tezuka. Na parte de séries, a Disney lançou a série japonesa Canibal no Star Plus, reforçando presença também em séries no streaming.

Isso não impediu polêmicas na plataforma, porque a primeira grande série coreana mundial da Disney foi Snowdrop que recebeu críticas por romantizar o período militar conturbado dos anos de 1980 na Coreia do Sul. A empresa agiu rápido e conseguiu manter o lançamento da série, inclusive sendo a primeira produção lançada no Brasil pelo streaming Star Plus.

Além disso, a Disney assegurou produções musicais dos grupos BTS e Blackpink no Disney Plus e Star Plus reforçando não só no catálogo de séries, mas também em shows em seus catálogos.

Por fora, temos a Paramount com formato MTV Unplugged do grupo BTS no seu serviço de streaming, Paramount Plus.

A Onda Hallyu

Parte do sucesso da Netflix tem a ver com a campanha do Ministério da Cultura Sul Coreano criado entre 1997 a 1998, chamada de “Onda Hallyu”. A onda causou o primeiro boom no Japão com a série “Winter Sonata”, numa mesma época que a cantora BoA se projetou no país com a gravadora Avex se tornando embaixadora da cultura coreana por lá.

Tendo um foco em KPOP e teledramaturgia como um todo, a onda Hallyu chegou ao Brasil em 2010. A onda explodiu matérias na televisão sobre o gênero musical coreano, além da criação de uma série de grupos covers e concursos de KPOP em eventos de animê e mangá. Essa disseminação impulsionasse fãs de cultura coreana consumissem os primeiros serviços de streaming no país focados no assunto, como Drama Fever e o Viki, despertando interesse de empresas maiores. É neste momento que empresas como a Netflix veem a oportunidade se desenhando e começam a investir em produções locais.

Esta onda paralelamente ganhou força com uma explosão de clipes no Youtube há mais de dez anos. Sucessos do grupo 2NE1 e do cantor PSY chamaram atenção mundial e até hoje o gênero KPOP tem seu público cativo com BTS, Blackpink, Twice que sempre quebram recordes de visualização no Youtube.

Com a “Onda Hallyu” despertando o interesse do público em produções sul-coreanas, estava criada a oportunidade de investimento da Netflix e da Disney. Mesmo Round 6 longe deste movimento, ele ganha certa vantagem com este mesmo público.

Netflix muda investimentos de animês em 2022

Filme Bubble foi uma das produções afetadas pela Netflix – Divulgação

Depois da queda brusca de assinantes, a Netflix teve que redefinir seus investimentos e com isso, diversas produções foram paralisadas ou revistas. Abafado com a crise na empresa concorrente depois da fusão entre a Discovery e a Warner que causou uma série de cancelamentos em todas as linhas da empresa, mas em especial HBO Max, a Netflix também teve que se mexer para sair de uma crise que se instaurou na empresa.

Em outubro, a Toyokeizai Online noticiou que a Netflix estava revendo os lançamentos em animê da plataforma. Assim, a empresa estava “transformando” séries em filmes, cancelando projetos e revendo direitos, se ausentando de investidor, apenas distribuindo a obra.

Na ocasião, diversos estúdios de animação japonesa se queixaram das reduções e cancelamentos que a Netflix fez nestes projetos, mas fazia parte de uma redução de custos da companhia.

O que se pensava que era uma redução de custos da operação como um todo, acabou se demonstrando que era em especial nos animês, porque os investimentos na Coreia do Sul aumentaram no mesmo período.

Netflix fecha parcerias para séries japonesas

Alice in Borderland 2 reforçou o sucesso da produção na Netflix – Divulgação

Se Round 6 mudou a forma que a empresa via as empresas sul coreanas, temos Alice in Borderland que repete o feito, se tornando a série japonesa mais vista na plataforma.
Desejando repetir este feito, a empresa fechou parcerias com a produtora japonesa BABEL LABEL e Grupo TBS / The Seven para produção de séries japonesas pelos próximos 5 anos.

Demonstrando investimentos pontuais em séries ao invés de animês, a Netflix demonstra que tem interesse pelo Japão, mas apenas está revendo quais projetos deverá investir na plataforma nos próximos anos.

Paralelo a isso a TBS mantém acordos de produção a Netflix e Disney Plus sem exclusividade total com nenhuma das duas empresas. Este tipo de acordo também se repete na Coreia do Sul com a emissora tvN numa disputa de exclusividade entre a Netflix e a Rakuten Viki pelas suas principais séries, como Vincenzo e Hospital Playlist.

Netflix anuncia aumento de assinantes

Para alívio de investidores, a Netflix anunciou que o último trimestre de 2022, a empresa teve um aumento de 7,7 milhões de assinantes em todo mundo. Fechando o ano com aumento acima do esperado, a empresa tira o gosto amargo que caminhou por todo o ano de 2022.

O aumento de assinantes por sua vez, não foi atribuído a nenhuma produção asiática, mas a chegada da série Wandinha e do documentário Harry e Meghan falando sobre a família real britânica.

Passado os tempos de alto consumo de streaming na pandemia, a Netflix parece ter entrado nos trilhos novamente e nada impede que a empresa reveja seus dados e invista mais em animês num futuro próximo.

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