O Agora das Companhias Nikkeis: Escritório da JICA Brasil

Esta série de artigos apresenta “o agora das companhias nikkeis do Brasil”.

A 20ª entrevista foi realizada com Masayuki Eguchi, representante chefe da JICA (Agência de Cooperação Internacional do Japão) no Brasil. Desde 1959, a JICA tem cooperado com o governo brasileiro e setor privado e com a comunidade nipo-brasileira para manter e fortalecer a parceria entre o Japão e o Brasil através da utilização de conhecimentos, experiências e recursos humanos adquiridos por meio de projetos de Assistência Oficial para o Desenvolvimento (AOD), do governo japonês.

Perfil do Escritório da JICA BrasilNome oficial: Agência de Cooperação Internacional do Japão (Japan International Cooperation Agency, em inglês)
Localização: Representação da JICA no Brasil (São Paulo – SP) e Escritório filial em Brasília
Data de estabelecimento: fevereiro de 1959
Número de funcionários: 40
Atividades: projetos de cooperação com o governo brasileiro e setor privado, e projetos de colaboração com a comunidade nipo-brasileira.
Site: https://www.jica.go.jp/portuguese/overseas/brazil/office/index.html

Os resultados da cooperação bilateral entre Japão e Brasil como solução de desafios globais


Representante Chefe Masayuki Eguchi 

A partir de 1954, a JICA iniciou a cooperação técnica no exterior. Após o restabelecimento das relações diplomáticas entre o Japão e o Brasil em 1952, a primeira cooperação técnica no Brasil ocorreu em 1959 com o envio de especialistas na área de irrigação agrícola. Desde então, a JICA tem se dedicado a uma ampla gama de projetos de cooperação técnica e financeira em setores como de exploração de recursos naturais, transporte, agricultura, preservação do meio ambiente, saúde, segurança pública, saneamento básico, prevenção de desastres naturais, entre outros, totalizando um apoio de mais de 500 bilhões de ienes até o momento.

Um dos projetos de cooperação mais significativos para o Brasil foi o desenvolvimento agrícola no Cerrado, realizado em parceria com o governo brasileiro, através de assistência financeira, e a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), por meio de cooperação técnica. Esse projeto resultou no aumento de 500% na produção e 300% na produtividade do solo em uma área de 345 mil hectares no Cerrado e estabeleceu as bases para o Brasil se tornar o maior produtor mundial de soja.

Na área de segurança pública, o policiamento comunitário foi introduzido em São Paulo na década de 1990, visando melhorar a segurança por meio da interação e construção de confiança com os cidadãos. Esse projeto, inspirado no sistema de postos policiais japoneses (Sistema Koban), foi desenvolvido em cooperação com o Japão por cerca de 15 anos. Como resultado, desde o início da cooperação japonesa, o número de homicídios no estado de São Paulo diminuiu de cerca de 34 a cada 100 mil habitantes em 2000 para cerca de 7 a cada 100 mil habitantes em 2018. Em abril de 2019, foi estabelecida uma diretriz para o policiamento comunitário em nível federal e o sistema foi expandido por todo o país.

As doenças infecciosas são as velhas e, ao mesmo tempo, as novas ameaças da humanidade. A cooperação técnica para a produção de vacinas contra o sarampo e a poliomielite ao longo de quatro anos na década de 1980 resultou na produção nacional de vacinas pelo Brasil. Além disso, desde antes da pandemia de COVID-19 até os dias atuais, a JICA continua apoiando a pesquisa conjunta e a cooperação técnica para a prevenção de doenças infecciosas em parceria com universidades e instituições de pesquisa do Japão e do Brasil.

Imagens do desmatamento da Amazônia projetadas por satélites da JAXA

Nos últimos anos, os desastres naturais causados pelas mudanças climáticas têm se tornado frequentes. Diante desse contexto, a JICA também passou a priorizar projetos de “mitigação” das mudanças climáticas, incluindo conservação florestal e iniciativas de energia renovável. Na luta contra o desmatamento ilegal na Amazônia, a JICA, em colaboração com o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), utiliza imagens de satélite da JAXA (Agência de Exploração Aeroespacial do Japão) para monitorar o desmatamento abaixo das nuvens na Amazônia, ao mesmo tempo em que emprega inteligência artificial (IA) para prever e detectar atividades ilegais de desmatamento. Além disso, a JICA está envolvida em diversas iniciativas, como o apoio ao desenvolvimento agrícola sustentável conhecido como sistema agroflorestal em Tomé-Açu (onde se localiza uma comunidade de colonos japoneses no estado do Pará), financiamento de projetos de energia solar e cooperação para a produção de hidrogênio verde em parceria com o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

Por outro lado, o Japão tem vasta experiência em prevenção de desastres naturais, úteis para a “adaptação” às consequências das mudanças climáticas como chuvas fortes, secas, enchentes e deslizamentos de terra. Por exemplo, durante muitos anos, as enchentes do Rio Tietê nas estações chuvosas paralisavam as funções econômicas e sociais da área metropolitana de São Paulo, mas hoje o rio não transborda mais devido à conclusão da obra de infraestrutura de controle de enchentes, que teve seu início em 1990 e durou cerca de 10 anos, financiado com o empréstimo AOD do governo japonês. Atualmente, visando enfrentar os frequentes deslizamentos de terra que ocorrem em diversas regiões, a JICA tem enviado especialistas de longa estadia para estabelecer cooperação técnica nas políticas de prevenção de desastres e nas obras de infraestrutura.

Recentemente, o Brasil tem se transformado de um país beneficiário da cooperação japonesa para um parceiro colaborativo, expandindo os resultados da cooperação bilateral para outras regiões, como a América Central e países africanos de língua portuguesa. Essa nova abordagem está sendo chamada como “cooperação sul-sul” ou “cooperação trilateral”: estão sendo desenvolvidos projetos de policiamento comunitário em países da América Central e de saúde e desenvolvimento de recursos humanos industriais em países africanos de língua portuguesa, como Angola e Moçambique. Com base na longa e diversificada colaboração e confiança estabelecidas entre o Japão e o Brasil, é possível que os dois países fiquem lado a lado para o enfrentamento de desafios globais, como segurança alimentar, combate às mudanças climáticas e controle de doenças infecciosas.

Imagens do desmatamento da Amazônia projetadas por satélites da JAXA

Parceria com o setor privado e cooperação com a sociedade civil

Difusão do Sistema Koban em São Paulo

Como uma abordagem eficaz para resolver desafios em países em desenvolvimento, a JICA valoriza a cooperação que não se limite a órgãos governamentais, estendendo os laços de cooperação ao setor privado, universidades, ONGs e governos locais.

O governo brasileiro dá importância para a iniciativa privada, e, de fato, o setor privado desempenha um papel significativo no desenvolvimento socioeconômico do Brasil. A JICA fornece suporte à iniciativa privada, por meio de investimentos e empréstimos (PSIF: Private-sector Investment Finance, em inglês) a entidades do setor privado em áreas como agricultura, saúde, energia, preservação ambiental e apoio a pequenas e médias empresas. Atualmente, em termos globais, o Brasil é o país com o maior número de aprovações de investimentos que passam pela JICA, e o apoio ao setor privado deve se tornar em uma das principais atividades da JICA no Brasil.

Além disso, as tecnologias detidas por pequenas e médias empresas em várias regiões do Japão são valiosas para resolver diversos desafios no Brasil. A JICA apoia pesquisas e iniciativas para transformar essas tecnologias em negócios, abrangendo áreas como segurança, prevenção de desastres naturais, reforço e reparo de infraestrutura, medição de carbono armazenado, gerenciamento de resíduos e reciclagem, e cuidados a idosos. A JICA também introduziu um esquema de suporte para consultoria a startups que exploram oportunidades de expansão no Brasil através do uso de tecnologias japonesas. Nesse processo de apoio, a confiança e a rede social que a JICA tem construído com órgãos governamentais se tornam úteis.

Como parte de projetos envolvendo a participação cidadã, há a cooperação chamada de Projeto Comunitário. Por exemplo, o projeto realizado entre a província de Shimane e a cidade de Caçapava – SP, visando aprimorar as habilidades de ensino ambiental dos professores de escolas primárias, foi liderado por ex-bolsistas da JICA que retornaram do Japão, que desenvolveram métodos e materiais de ensino ambiental, culminando na implementação de um programa de educação ambiental instituído como lei municipal em 2022.

Junto à comunidade nikkei que evolui no Brasil

Infraestrutura para controle de enchentes do Rio Tietê (construído com empréstimo AOD do governo japonês, de longo prazo e com baixa taxa de juros)

A comunidade nikkei tem crescido e se integrado cada vez mais no Brasil, preservando e respeitando as tradições e valores japoneses, ao mesmo tempo em que cria novos valores através do surgimento de novas gerações e integração com a sociedade não nikkei. O relacionamento entre a JICA e a comunidade nikkei no Brasil, que teve início com o objetivo de apoiar os imigrantes no período pós-guerra, também está passando por transformações ao longo do tempo.

Para o futuro, espera-se uma mudança de atividades centradas em japoneses e nikkeis para atividades mais abertas à sociedade não nikkei. A JICA, reconhecendo essas mudanças e necessidades em torno da comunidade nikkei, está introduzindo novas áreas de especialização como a cultura pop (animes, danças de anime, mangás, cosplay) e negócios como áreas de interesse aceitas para o pessoal a fazer curso de treinamento no Japão através da JICA. O sucesso dos projetos de cooperação da JICA com a comunidade nikkei (cursos de treinamento no Japão, programas de subsídios e envio de voluntários japoneses) não resultam apenas na preservação e desenvolvimento da comunidade nikkei, mas também no desenvolvimento da sociedade brasileira.

O representante chefe Eguchi observa: “A maior força que sustenta a relação entre o Japão e o Brasil é a presença de 2 milhões de nikkeis na terra brasileira, a maior população nikkei fora do Japão. Em vez de considerar essa vantagem como algo normal, é importante explorar estratégias para tornar as relações entre o Japão e a comunidade nikkei (e a sociedade brasileira no Japão) mutuamente benéficas. Essa é a chave para fortalecer as relações entre os dois países.”

O apoio e a colaboração com a comunidade nipo-brasileira em crescimento no Japão nos últimos 30 anos são reconhecidos como questões importantes para o desenvolvimento das relações entre o Japão e o Brasil e da sociedade japonesa. Em um programa de apoio à comunidade brasileira no Japão através de bolsistas da JICA, iniciado durante a pandemia de COVID-19 e que continua até os dias de hoje, 16 nipo-brasileiros foram enviados pela JICA para atuar em várias cidades onde há maiores concentrações de população brasileira no Japão.

Entrevistadora: Tomoko Oura

Representante Chefe Masayuki Eguchi 

Difusão do Sistema Koban em São Paulo

Imagens do desmatamento da Amazônia projetadas por satélites da JAXA

Área com introdução do sistema agroflorestal para a produção sustentável na Amazônia 

Infraestrutura para controle de enchentes do Rio Tietê (construído com empréstimo AOD do governo japonês, de longo prazo e com baixa taxa de juros) 

spot_img

Relacionados

Destaques da Redação

spot_img