Alerta: Depressão com altos índices na comunidade brasileira no Japão

Camila Thuha, no mundo dos dogs, que a ajudou bastante

Além das causas tradicionais, estar longe da família e a rotina de trabalho no Japão contribuem para o aumento da doença.

Uma das doenças que atinge as pessoas sem aviso e com sintomas que podem confundir, a depressão está presente na comunidade brasileira no Japão e com números preocupantes.

Segundo dados do Serviço de Assistência aos Brasileiros no Japão (SABJA), os números de atendimentos psicológicos nos últimos três anos aumentaram e revelam o crescimento de pessoas com depressão e ansiedade. Em 2020, foram 1212 atendimentos (36% depressão/ 19% ansiedade), em 2021, 1356 atendimentos (24% depressão/ 19% ansiedade) e em 2022, 1364 (26% depressão / 25% ansiedade).

A depressão geralmente apresenta sintomas que podem ser confundidos com outras doenças ou apenas sentimentos momentâneos que pode levar a um quadro grave da doença. De acordo com profissionais, uma tristeza profunda, falta de vontade de fazer algo que antes dava prazer, falta de ânimo, cansaço e baixa autoestima são alguns dos sintomas que indicam o início de um quadro depressivo.

A dura rotina no Japão é um dos motivos a mais que afeta os brasileiros a desenvolverem a doença.  A paulista Camila Thuha, 31 anos, reside em Fukui, teve o diagnostico depois de muitas idas ao médico.  Depois de três anos residindo no país, começou a sentir palpitação, boca seca e achava que estava com a garganta infeccionada por conta da intensa dor que sentia.  Ela conta que fez várias consultas em médicos diferentes e o resultado era sempre o mesmo, não tinha nada, mas a dor não passava.  Neste período sem apresentar melhoras, a situação ficou mais complicada, pois seu pai e sua sogra estavam com problemas de saúde no Brasil. 

A situação foi piorando para um quadro preocupante, Camila começou a sentir uma tristeza profunda e do nada começava a chorar, sem vontade de fazer qualquer coisa e com tonturas. Sabia que tinha algo errado com a saúde, fazia as consultas médicas, mas o resultado eram sempre o mesmo, para os médicos ela não tinha absolutamente nada.

Rotina – A piora na saúde do pai e com a saúde debilitada da sogra, Camila e o marido decidiram ir para o Brasil. Apesar do momento delicado, as dores e sensações de tristezas de Camila foram diminuindo sem qualquer medicação. Mas ao retornar ao Japão, tudo voltou.

“Tinha conhecimento zero. Eu era daquelas pessoas que achavam que que depressão e ansiedade eram frescuras, falta de serviço”, conta.

A volta a rotina no Japão fez a situação piorar e até mesmo a música no sougei era motivo para as lágrimas começarem a cair. Mudou de cidade e emprego com o pensamento de que tudo melhoraria, afinal seria uma nova rotina, mas foi um mero engano.

“Todo dia a mesma coisa, acordar, fábrica, voltar para casa, comer, tomar banho e dormir, no outro dia tudo igual.  Cheguei em Fukui, com a rotina 4×2, 12 horas na fabrica e eram 14 horas fora de casa”, relata.

A morte do pai foi um agravante para a situação que estava incontrolável, quando percebeu que precisava de ajuda. Fez um consulta on-line com psicólogo do Brasil e teve o diagnóstico de depressão, crise de pânico e ansiedade.  Começou um tratamento no Japão o que caminhou para uma melhora significativa em sua vida.

“Eu acredito que me salvou, foi entender o que era essa doença e aceitar que qualquer um pode ter a qualquer momento, buscar ajuda e não ter medo ou vergonha”, explica.

Excesso de trabalho – Atualmente, Camila diz estar bem melhor, seguindo com a medicação e fazendo algo que gosta. “Eu não queria me entregar, então eu lutei e arrumei uma forma de trabalhar com o que mais amo: cachorros. Faço passeios, hospedo cachorros em casa, dou banho. Me reinventei para não ficar na cama dopada”.

O caso de Camila é semelhante a de muitos brasileiros residente no Japão. Muitos vieram sozinho, sem família e com a rotina poucos tem amigos, o que torna a vida diária solitária. Para o psicólogo Irineu Jo, os fatores que encaminham o brasileiro para um quadro de depressão vão além da solidão, há também a percepção cultural de que sempre estão sozinhos sem os padrões do Brasil, o choque cultural e não saber separar os papéis sociais, sofrendo com a distância dos parentes.

“O excesso de trabalho gera depressão, principalmente a falta de sentido que se da ou melhor que não se dá para suas vidas, resumir a vida apenas ao ambiente de trabalho

Não tendo um planejamento (objetivo de vida) concreto, falta de sentido, doenças, envelhecimento são alguns fatores que contribuem com o aparecimento e agravamento da depressão”, explica o profissional que atende na SABJA.

*SABJA – Serviço de Assistência aos Brasileiros no Japão

Organização sem Fins Lucrativos

Atendimento Psicológico On-Line e Presencial

Mais informações: nposabja@gmail.com / 050-6861-6400

Atendimento presencial em Hamamatsu e na prefeitura de Shinshiro (AICHI).

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