‘A falha é um passo para o sucesso’: empreendedora japonesa quebra paradigmas com negócio sustentável

Natsuko Shiraki comanda joalheria referência em sustentabilidade: preocupação com o mundo

Para Natsuko Shiraki, empreender nunca foi tarefa das mais fáceis. Ainda mais em um país onde as raízes tradicionais predominam como no caso do Japão, pois os homens ainda são protagonistas nas tomadas de decisões, tanto em casa quanto nas empresas e em órgãos públicos. Incomodada desde jovem com injustiças sociais e com o sonho de atuar em uma organização em prol de uma sociedade melhor, ela estudou temas ligados a injustiça social (como o trabalho infantil), obtendo um estágio na ONU (Organização das Nações Unidas). “Vi a realidade em alguns locais que tinham trabalho infantil, e queria resolver esse problema”, relembra. 

Mas ela chegou à conclusão que a raiz do problema era o cuidado com as crianças desde suas casas – e que não estava contemplado nas ações humanitárias. Decidiu, aos 27 anos, abrir uma empresa, no caso uma joalheria, e através de seu negócio auxiliar povos que sofrem com o triste panorama. Atualmente, 14 anos após a “virada de chave”, traduz o esforço em resultados positivos através do empreendedorismo sustentável.

Sua empresa – a Hasuna Co. – está alinhada às propostas de objetivos globais de desenvolvimento. Todas as peças produzidas são consideradas “joias éticas”, que visam levar em consideração as pessoas, a sociedade e o meio ambiente. Ganhou protagonismo, sendo premiada como “Mulher do Ano 2011” pela revista Nikkei Woman, foi selecionada como um dos 30 jovens líderes do Japão (Global Shapers Community 2011) pelo Fórum Econômico Mundial (Conferência de Davos) e participou da Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial. 

Na semana passada, Natsuko fez uma rápida passagem pelo Brasil para participar do “Mude o mundo através dos negócios de ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – Simpósio de Empoderamento das Mulheres Empreendedoras Nikkeis”, promovido pela JICA com apoio da REN Brasil, ONU Mulheres, Bunkyo, NEB e Câmara de Comércio Brasil Japão do Paraná. E se surpreendeu com a receptividade do País, bem como com o movimentado ecossistema em torno do empreendedorismo tupiniquim. Ela, inclusive, bateu um papo com o Nippon Já. Confira:

Encontro com mulheres brasileiras foi marcado pela alegria

Nippon Já: É primeira passagem ao Brasil? Qual foi sua impressão do País? 

Natsuko Shiraki: É a primeira vez que venho para o Brasil. Não imaginava que a comunidade nikkei fosse tão grande aqui no Brasil. A relação entre Brasil e Japão é realmente muito forte.

NJ:  Como você enxerga uma iniciativa como essa de reunir em torno de um tema tão atual mulheres descendentes de japoneses abordando o tema “negócios”?

NS: Nos últimos anos, a quantidade das empreendedoras dentro da comunidade nikkei vem crescendo. No Japão ainda há poucas mulheres empreendedoras, e não há muitos simpósios deste tipo  para unir forças. Esses encontros como promovido aqui no Brasil resultam na melhoria da sociedade.

NJ: Sabemos que no Japão há uma cultura machista predominante. Não apenas dentro das residências, mas refletido também nas culturas organizacionais. Isso tem mudado nos últimos anos?

NS: A cultura machista vem diminuindo no Japão, mas ainda há sim. Até a universidade não há tais tipos de preconceitos, pois independente do gênero é possível ter acesso a estudos. Porém, quando termina a graduação, a sociedade vê preconceito contra as mulheres, principalmente no pós-parto. Mesmo diminuindo o machismo, depois que se torna uma mãe, a mulher tem que desistir da carreira. Mas isso não é apenas por causa do preconceito somente. Infelizmente, algumas mulheres já acostumaram.

Participantes trocaram conhecimento com empreendedora

NJ: Quando despertou o interesse de abrir o seu próprio negócio?

NS: De início queria muito trabalhar em uma organização internacional, mas quando realizei estágio em ONU, e vi a presença de trabalho infantil, quis resolver esse problema. Para resolver tal questão, claro que a organização internacional também podem interferir, mas se  olharmos para a “raiz” do problema, a maioria das pessoas que trabalham na área não só de joalheria, mas também manufatureiras, não tem interesse em saber quem e como está sendo produzido. Acho que se essas pessoas se preocupassem e cuidassem deste comportamento, acredito que diminuiria o problema. Percebi que era isso que eu queria aos 20. Com 27 anos, fundei a empresa. 

NJ: Quem foi a sua inspiração?

NS: Minha inspiração foi a Coco Chanel. Até então as mulheres eram como enfeite para os homens, mas ela quebrou isso e foi uma mulher que cresceu na carreira, criando bolsas e roupas sociais femininas, para que outras mulheres também cresçam socialmente.

NJ: No meio da sua trajetória, ou após a inauguração da Hasuna, qual foi a coisa mais feliz ou marcante que ocorreu?

NS: Teve um cliente que procurava uma aliança de noivado, mas não sabiam de onde vinham as joias. Então viram a Hasuna, onde encontram as joias dos locais adequados, e compraram na minha loja. Nesse momento eu vi que não era só eu que tinha essa visão, mas alguns clientes também.

Outra história que fiquei muito feliz também foi um fato no Paquistão. Costumo comprar as pedras de lá, pois há um grupo de mulheres que trabalham como garimpeiras, pois acabaram perdendo os maridos, e precisam de dinheiros para sustentar suas crianças. No Japão, por mais que tenha machismo, as mulheres têm várias opções de serviços, e acredito que no Brasil também seja assim. Mas no Paquistão elas não tem escolha, então quando elas ficaram sabendo que as pedras que elas extraem eram comercializadas no Japão, ficaram felizes. 

NJ: Para você, o que é mais importante para empreender? E qual o mérito?

NS: Há vários fatores importantes, porém, entendo que não achar que a falha é simplesmente uma falha, mas sim, ‘a falha é um passo para o sucesso’. Sobre o mérito, na minha opinião seria a flexibilização de horário, principalmente para as mulheres após terem filhos.

NJ: Pode deixar comentário para as mulheres do mundo que lutam para viabilizarem um negócio próprio?

NS: Muitas pessoas podem achar difícil, mas eu acho que o mais importante é não desistir. Se você tiver vontade, com certeza as pessoas ao redor irão te apoiar, por isso, não tenha vergonha de depender ou pedir ajudar das pessoas. Construa algo não sozinho, mas em conjunto com as outras pessoas. Se tiver interesse em começar algo (negócio), tente começar sem medo.

(Ricardo Asato)

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